Design 2026-10-14 · 5 min

Dimensionar um transformador para um edifício: método e exemplo

Como passar da carga total de um edifício à potência certa de transformador, com fator de diversidade, corrente de BT e exemplo resolvido.

Autor: Equipa GorkyCAD

Porque é que a escolha importa

O transformador de distribuição é o ponto onde a energia da rede chega ao edifício em tensão utilizável. Dimensioná-lo mal tem dois lados: um transformador demasiado pequeno sobreaquece em hora de ponta, encurta a vida do isolamento e obriga a substituição prematura; um transformador grande demais paga-se mais caro, ocupa mais sala técnica e trabalha com rendimento inferior nas cargas baixas, porque as perdas em vazio não são desprezáveis.

O método de escolha é o mesmo para um prédio, um escritório ou uma pequena indústria: quantificar a carga real do edifício, aplicar o fator de diversidade, converter a potência de cálculo em potência aparente (kVA) e escolher o valor de catálogo imediatamente acima, com margem para o futuro. Este guia percorre o processo passo a passo, com um exemplo resolvido à vista.

Passo 1: quantificar a carga do edifício

Antes de falar em kVA é preciso saber o que o edifício vai pedir. Reúna a folha de carga de todos os recetores: iluminação, tomadas, climatização, ventilação, bombagem, águas quentes, cozinha, elevadores, carregamento de veículos elétricos e equipamentos de processo quando existirem.

A soma das potências nominais não é a potência de cálculo: nem todos os recetores trabalham ao mesmo tempo nem a plena carga. É aí que entra o fator de diversidade (ou coeficiente de simultaneidade), que traduz essa coincidência parcial num número entre 0 e 1. O resultado é a potência de cálculo, Pc = ks × ΣPn — o valor que o transformador terá de suportar nos dias mais exigentes.

Um detalhe que se esquece com frequência: as cargas de climatização e de carregamento de veículos elétricos não se somam por acaso — coincidem precisamente em hora de ponta. Quando estas cargas existem, o fator de diversidade sobe e a margem de projeto também.

Passo 2: da potência ativa à potência aparente

O transformador é dimensionado em kVA, não em kW, porque o que limita o equipamento é a corrente que atravessa os enrolamentos e não a potência útil entregue. A conversão é simples:

S = P / cos φ, onde S é a potência aparente, P a potência de cálculo ativa e cos φ o fator de potência da instalação.

Com um cos φ de 0,9 — valor habitual em instalações com iluminação e cargas mistas —, 100 kW de carga de cálculo correspondem a cerca de 111 kVA. Se o projeto corrigir o fator de potência com bancos de condensadores, o valor pedido ao transformador desce na mesma proporção; sem correção, convém não otimizar a conta à décima e deixar folga.

Exemplo resolvido

Um edifício de escritórios tem 220 kW instalados. Com fator de diversidade de 0,75, a potência de cálculo é Pc = 0,75 × 220 = 165 kW. Para cos φ = 0,9, S = 165 / 0,9 ≈ 183 kVA. O valor de catálogo imediatamente acima, numa série usual de transformadores de distribuição, é 200 kVA — a escolha natural para esta carga, antes de acrescentar margem de crescimento.

Passo 3: corrente e tensão do lado de baixa tensão

Escolhida a potência, resta traduzi-la em grandezas que o resto da instalação entende. Na baixa tensão trifásica de 400 V, a corrente nominal é:

I = S / (√3 × U) = S / (1,732 × 400 V)

Os valores mais frequentes:

Potência (kVA)Corrente nominal em 400 V (A)
100144
160231
200289
250361
315455
400577
630909

Esta corrente define a secção do barramento, os cabos de saída, o quadro de distribuição geral e o valor de corrente de base usado depois nos cálculos de curto-circuito. Erro aqui espalha-se por todo o dimensionamento a jusante.

Passo 4: margem, perdas e crescimento

O valor de catálogo escolhido deve cobrir não só a carga de hoje, mas o que de razoável se prevê para a vida do edifício. Os pontos a considerar:

  • Margem de crescimento. Aumento de ar-condicionado, nova cozinha ou estações de carregamento de veículos elétricos sobrecarregam um transformador já ao limite; prever uma gama acima da carga atual evita substituição em poucos anos.
  • Séries comerciais. Os transformadores de distribuição seguem gamas padronizadas (100, 160, 200, 250, 315, 400, 500, 630, 800, 1000 kVA e por diante); arredonda-se sempre para cima, nunca para baixo.
  • Perdas. Perdas em vazio e em carga entram na conta energética do edifício; em utilização contínua, um núcleo de melhor classe pode compensar a diferença de preço ao longo dos anos.
  • Tipologia. A escolha entre óleo mineral e resina de vinil é determinada pelo regulamento local, pela reação ao fogo exigida para a sala e pela manutenção disponível na região; é uma decisão de projeto, não de catálogo.
  • Tensão de trabalho. Conforme a rede e a posição do transformador, vale verificar a faixa de regulação e confirmar a saída de 400 V em todas as condições de carga.

Erros frequentes

  • Somar potências nominais sem diversidade. Sai um valor inflacionado e um transformador sobredimensionado, pagando perdas desnecessárias durante toda a vida útil.
  • Aplicar diversidade a uma carga única. Um aquecedor ou uma unidade de climatização de grande potência é dimensionado a plena carga, sem coeficiente.
  • Confundir kW com kVA. Usar a potência ativa direto como potência do transformador deixa a instalação sem margem quando o fator de potência piora.
  • Ignorar cargas comuns. Elevadores, bombas e iluminação de zonas comuns entram na conta do edifício, não na de cada apartamento.
  • Olhar só para hoje. O carregamento de veículos elétricos muda a curva de carga de um edifício em poucos anos; uma gama acima custa pouco e evita obra futura.

Conclusão: do cálculo à sala técnica

O dimensionamento resume-se a três números: potência de cálculo do edifício, potência aparente pedida ao transformador e corrente nominal na baixa tensão. Tudo o resto — barramento, cabos, proteções e curto-circuito — acompanha esses valores. Registar a folha de carga, o fator de diversidade usado e a margem adotada deixa a decisão auditável quando a instalação crescer.

No GorkyCAD, a folha de carga e as correntes de cálculo ficam no mesmo modelo que os esquemas unifilares e o quadro elétrico: mudou a carga, as correntes e as proteções atualizam-se sem refazer o desenho, e o conjunto sai em PDF ou XLSX para o dossier do projeto.

Calcular o transformador →

Perguntas frequentes

Como sei a potência do transformador que preciso?

Calcule a potência de cálculo do edifício com o fator de diversidade, divida pelo fator de potência para obter kVA e escolha o valor de catálogo imediatamente acima, acrescentando margem para crescimento.

Transformador dimensiona-se por kW ou por kVA?

Por kVA. O que aquece os enrolamentos é a corrente, ou seja a potência aparente; a potência ativa em kW só chega depois da divisão pelo fator de potência.

Que margem de crescimento devo deixar?

Depende do programa do edifício. Edifícios com cargas previsíveis de carregamento de veículos elétricos ou nova climatização devem ser dimensionados para a gama acima da carga atual, evitando substituição prematura.

O fator de diversidade pode ser aplicado a qualquer circuito?

Não. Aplica-se na agregação de circuitos e no topo da instalação; num circuito com um único recetor potente, a corrente de cálculo é a do próprio recetor, sem coeficiente.

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